sexta-feira, 20 de junho de 2014

PENÉLOPE, CAIS E ESPERA - UMA ABORDAGEM TEÓRICO-PRÁTICA DA PRODUÇÃO EXPERIMENTAL AUDIOVISUAL



Este trabalho toma como base o mito de Penélope, filha de Ícaro (irmão de Tíndaro, rei de Esparta) e Peribéia (a ninfa). Casada com Ulisses, guerreiro enviado à guerra de Tróia (que durou 20 anos). Penélope tinha a fama de possuir virtudes domésticas, tendo assim diversos pretendentes durante a época da guerra, tendo, além disto, um pai insistente em um novo matrimônio, sendo que Ulisses, seu esposo ausente, confiara-lhe a guarda do reino de Ítaca para o filho do casal, Telêmaco, em caso do não retorno e Tróia. É com base nessa trama que o vídeo foi inspirado, começando com uma cena da personagem num cais como quem espera a volta de um barco. A partir daí, abre-se um ciclo de memórias da personagem desde o momento de sua partida de casa, num ato de amor a Ulisses e insubmissão ao pai na insistência da sugestão de um novo casamento. Pela dubiedade da submissão ao marido (ou ao amor) e pela insubmissão ao patriarcado, Penélope sai de casa. Errante, vaga seguindo para o mar, na esperança cega de ver o retorno de Ulisses a qualquer custo, e com sua caminhada.

Nesta pesquisa, pretende-se observar os resultados obtidos pelo processo de composição da obra e a relação entre os elementos específicos do vídeo (que por sua natureza utiliza a gramática cinematográfica), observando também o vídeo em questão enquanto estrutura fílmica desprendida de seu motivo e do seu fim. Pela indefinição dos motivos que estimularam a personagem, este trabalho pretende propor um diálogo com o espectador, convidando-o (a partir da intriga gerada por essa indefinição) a participar da criação desta narrativa, dando margem para os pressupostos dele, que exercitando o raciocínio sobre a imagem, faz surgir, significados diferentes de acordo com o seu conhecimento prévio, desde o simples observar e apreciar as imagens à compreensão parcial ou total do argumento e roteiro propostos para a obra. Na verdade o que o espectador verá é o resultado da experimentação do processo combinatório dos elementos a cima propostos.

Este vídeo utiliza duas estruturas básicas: Uma macroestrutura com a narrativa propriamente dita, dividida em três segmentos onde o primeiro é sucessor dos dois seguintes e duas microestruturas: uma no que chamaremos aqui de sessão 2 e uma microestrutura em progressão aritmética - P.A.[1] -  de razão dois na sessão 3 do segundo segmento, onde o segmento 1 corresponde às cenas internas, da personagem em sua casa, e o segmento 2, às cenas da caminhada da personagem.

Para uma melhor compreensão, vamos a uma breve análise do vídeo, que começa com o número 3 estampado na tela, dando a primeira dica ao espectador de qual parte daquela narrativa está vendo. Em seguida vemos a personagem em um plano longo, com câmera e personagem estáticos. Esse plano tem como duração o tempo exato do primeiro movimento da peça do músico inglês Richard Wright que anuncia o tom dramático da obra. Após esse plano único do terceiro segmento, o número 1 aparece na tela, indicando aí o início cronológico desta narrativa, tendo já como trilha sonora o segundo movimento de Sysyphus, onde neste primeiro segmento, a disposição dos planos na narrativa segue as teorias einsesteinianas de produção de sentido a partir da justaposição dos planos, apresentando a personagem em sua casa à espera de Ulisses, utilizando efeitos de iluminação e montagem para simular a passagem do tempo com cenas gravadas sob       luz natural para dar a veracidade da luz do dia, e cenas iluminadas com lâmpada alógena de sódio que nos dá uma luz amarela, para simbolizar a luz noturna. Inicialmente, ao som de um piano melodioso vemos a personagem insone e / ou desolada pela casa, respondendo a um estímulo que não está presente na narrativa (a convocação de Ulisses para a guerra de Tróia). Uma cena em especial nesse primeiro segmento macroestrutural dá ao espectador uma dica do motivo deste comportamento da personagem: a partitura que aparece no plano detalhe é uma transcrição para piano a quatro mãos de A sagração da primavera de Igor Stravinsky (a partir dessa imagem, os conhecedores de música poderão matar essa ‘charada’), enquanto a personagem está debruçada sobre o piano repetindo uma única nota. Os três últimos planos desse primeiro segmento estrutural (de n°1 na narrativa) representam a fuga e a libertação dessa mulher que passa pela câmera tendo seu vestido como um ponto de corte para o blackout para encerrar aqui o prólogo narrativo, assim como fez Alfred Hitchcock em Festim Diabólico (Rope, 1948), onde se utiliza dessa técnica para dar continuidade à cena na troca de rolo no filme, podendo assim dar segmento à narrativa em um suposto plano sequência, que vai desde o momento do crime até a sua dissolução.

Esta sequência de imagens do primeiro segmento que descreve a rotina da personagem tem como referência um filme do diretor underground Kenneth Anger em seu filme Puce Moment. Fragmento de um projeto inacabado intitulado Puce Women, Anger faz uma narrativa em seis minutos de uma personagem feminina típica dos anos 50, preparando-se para supostamente passear com seus cães com o vestido azul (puce / purple em inglês). Anger realiza esse filme privilegiando as imagens, trabalhando cuidadosamente seus enquadramentos e composições dos planos dispostos na montagem sobre a trilha sonora do também underground Jonathan Halper e as teorias de Eisenstein.

Depois desse efeito de Blackout, inicia-se um segundo segmento estrutural, tendo a inserção do número 2 uma elipse entre as duas partes. Esta segunda parte que se inicia, propõe utilizar planos longos (ao contrário do primeiro segmento) em slow motion[2], que gera um efeito de câmera lenta, dilatando mais ainda o tempo, desde o seu primeiro plano, que dura 50 segundos. Geraldo Motta, diretor do filme O senhor do labirinto afirmou certa vez na palestra O plano cinematográfico[3] que "um plano que dura além de sua simples necessidade funcional nos obriga a reconsiderar a imagem segundo critérios menos diretamente ligados à estória, modificando nossa apreensão do tema e da imagem". Sendo assim, a duração do plano é um acontecimento que pode convidar o espectador a uma atitude mais contemplativa, assim como também pode irritar ou criar um sentimento de angústia e / ou mal-estar com relação à imagem projetada na tela. Temos como exemplo disso a cena de estupro no filme Irreversível[4] que, em tempo real, 13 minutos, sem cortes faz do espectador uma testemunha ocular do fato causando uma repulsa ou sensação de impotência diante da cena; Temos exemplo de experimentos com a duração do plano também em Glauber Rocha, em seu filme Câncer (1968-72), quando começou a estudar planos longos, na prática, influenciado pela utilização pioneira dos planos-sequência[5] de Jean Marie Straub, fazendo de Câncer um filme com 27 planos-sequência com dração aproximada de 12 minutos cada (um rolo de uma Eclair 16mm[6]), quase eliminando a decupagem e montagem clássica, onde a câmera se apresenta não mais como uma câmera de cinema fotografando no sentido clássico da fotografia cinematográfica, mas registrando a ação como um VT, como aponta Mota (2001).

Neste segundo segmento, também é proposta uma nova estrutura, denominada no roteiro de sessões. A primeira sessão corresponde a imagens frontais da personagem. A segunda, a tomadas laterais e a terceira, de costas, sempre intercaladas por planos de “descanso e espera”. Os planos que compõem a sessão 1 são longos e foi aplicado um efeito de slow motion na pós produção, que, além de dar um caráter de leveza e languidez aos gestos da performer, conferem também um caráter contemplativo do plano longo, além da sua necessidade narrativa. Na sessão 2, (os planos laterais da performer), o tamanho dos planos diminui e temos alguns planos-detalhe que não mais obedecem às regras clássicas do Raccord  - um recurso que garante a coerência entre dois planos, mantendo a continuidade fílmica, que foi utilizado unicamente no fim do primeiro segmento - transformando-se simplesmente em mais um recorte espaço-temporal assim como os outros planos.

As imagens duplicadas indicam um sinal de dúvida da personagem quanto à valia da sua atitude, e as tomadas laterais da performer seguem, quase invasivos, num quase-close do rosto. Em seguida, temos planos curtos onde vemos enquadramentos incomuns ao cinema clássico, e um efeito de repetição (do plano e da personagem num mesmo plano), onde a personagem atravessa o plano, mas não o completa, desaparecendo por trás das árvores acompanhada por uma imagem dela mesma, num truque de montagem já conhecido desde o início do século XX (numa referência ao já citado filme de Alvin Knechtel Cockeyed: Gems from the memory of a nutty cameraman). A sessão 3 começa com um plano transitório onde a performer é vista de lado e a câmera pára e a personagem passa pela câmera. No plano seguinte temos a performer agora de costas, seguindo seu caminho num longo plano de aproximadamente dois minutos, que é entrecortado por uma progressão aritmética, começando com um único plano de exatos quatro frames contendo a imagem do rosto de Ulisses. A partir daí, a progressão aritmética segue desencadeando uma profusão de imagens, e entre cada elemento dessa progressão, vemos a continuação do plano anteposto, até o n° 32 da progressão, voltando tudo ao normal. Em seguida, numa cena noturna, novamente é utilizado o efeito de blackout a partir do vestido da performer, e nesse blackout, vemos nuances da personagem, iluminada, caminhando em várias direções, onde os longos espaços sem estímulo visual algum - a tela preta, sem imagens - representam elipses de tempo, numa sequência onde agora, vaga sem sentido em todas as direções do plano, até que voltamos a um plano da realidade da personagem: uma breve tomada subjetiva do ponto de vista da personagem - enquanto espera no primeiro plano - surge na tela subitamente, sugerindo um breve retorno à razão (o ‘não formar imagens mentais’ e enxergar rápido e de súbito a realidade), e as memórias recomeçam, entretanto agora vemos dois fragmentos de memória da personagem: ela enquanto caminha e lembra e a lembrança que ela tem enquanto caminha. Vemos as duas estruturas de imagens sobrepostas: uma delas novamente na microestrura da P.A, entretanto agora sem o rosto de Ulisses, sobreposta à imagem da personagem caminhando, sugerindo que ela agora, novamente em dúvida estivesse pensando sobre a sua condição de mulher, filha, esposa e mãe, em conflito com o desejo: meramente uma poética visual. Essas fusões de imagens sobrepostas seguem até o final do vídeo, quando mais uma vez uma profusão de planos acontece, iniciando com uma tomada do rosto de Ulisses, (o motivo de toda essa espera), em fusão com a imagem que inicia o vídeo, exatamente o mesmo recorte espaço-temporal que vemos no primeiro plano, com a imagem sumindo num longo fade out[7], determinando o fim do vídeo, o que confirma que a personagem nunca saiu dali, completando e fazendo compreender o ciclo das memórias.

Para entender melhor a memória da personagem enquanto imagem, tomemos o registro em vídeo como “fotografias em movimento” e o plano enquanto um recorte do tempo e do espaço do real, representado assim como na fotografia, de acordo com Martin (1990) quando afirma que “a imagem fílmica restitui exata e inteiramente o que é oferecido à câmera, e o registro que ela faz da realidade constitui, por definição, uma percepção objetiva: o valor probatório do documento fotográfico ou filmado é um princípio irrefutável” (MARTIN, 1990, p.21), onde esse princípio irrefutável seria a imagem. Dubois (1993, p.314) aponta que essa imagem registrada seria o “equivalente visual exato da lembrança. Uma foto é sempre uma imagem mental. Ou, em outras palavras, nossa memória só é feita de fotografias” (p.314). Desde a antiguidade, Cícero (106 - 43 a.C.), linguista e filósofo, já incitava seus discípulos à recorrência da memória na área da retórica, sugerindo-os escolher em pensamento, lugares distintos e formar para si imagens das coisas, concluindo que “as imagens lembram as próprias coisas” (DUBOIS, 1993 apud CÍCERO). Seria esse o pensamento básico do Ars Memoriae (arte da memória). Estas imagens são dispostas em lugares que são formadores da estrutura do dispositivo de memória que se encadeiam “de acordo com uma lógica relativamente automática em nossa cabeça”. Essas imagens são em sua maioria signos simbólicos, alegóricos, colocados em um determinado lugar por um tempo, enquanto que os lugares permanecem na memória, e as imagens, quando não mais precisamos delas, apagamo-las, permitindo que outro conjunto de imagens para outro trabalho de memória venha a ocupar esses lugares. Dubois observa também uma dupla natureza desse jogo imagético do exercício da memória. A escrita interior, proposta pelo autor anônimo de Ad Herenium, e a valorização da visão enquanto órgão de sentido mais sutil em Cícero, que afirma que “percorrer a imagem é o meio mais seguro de conservar a lembrança de algo”, (Dubois apud Cícero) concluindo então que essa escrita interior de imagens realiza-se em pensamento como uma atividade psíquica elaborada na antiguidade, tem agora um equivalente na possibilidade do registro e armazenamento da imagem.

Após essa descrição da macroestrutura, vamos analisar como é articulada a microestrutura nos moldes matemáticos da progressão aritmética, utilizada no vídeo: composta por planos de apenas quatro frames, onde os intervalos entre os elementos da progressão é o dobro da razão da progressão multiplicada pela quantidade de frames de cada imagem que a compõe. Sem obedecer de fato à ordem da macroestrutura, totalizando ao final trinta e seis planos curtos de quatro frames cada, que vão surgindo, numa progressão aritmética de razão um, onde temos um plano a mais para cada uma sequência de imagens que aparecem, totalizando 36 sequências (a última com 36 planos). A progressão (assim como as sequências) se desenrola iniciando com o rosto de Ulisses (o real motivo daquele martírio), para no último elemento da projeção, repetir-se, formando assim uma estrutura cíclica, contendo entre seu início e final, além de imagens subjetivas da personagem, imagens já vistas anteriormente pelo espectador, como se a câmera fosse uma espécie de portal entre a imagem e o espectador voyeur[8].

EQUIPAMENTO E PROCESSO


Para a realização deste trabalho formou-se uma equipe pequena (quatro pessoas apenas), com amigos conhecedores do processo de produção audiovisual.

Foi utilizada uma câmera fotográfica digital (canon powershot S5is), capaz de capturar imagens em movimento e nos dar também a possibilidade técnica de controle dos recursos fotográficos (abertura de iris, velocidade e tempo de exposição, foco, etc.), utilizando a luz natural (para as cenas diurnas) e luz artificial alógena (para as cenas noturnas).

Em três dias de gravação (05, 06 e 12 de setembro de 2009) todo o material bruto foi captado, em cinco locações: A casa do próprio diretor, o bosque do conjunto residencial Inácio Barbosa, o abandonado parque dos cajueiros, a praia de Atalaia e uma das escadarias dos mirantes do mercado central. Nas cenas externas sempre se aproveitou as locações da cidade, num exercício do olhar para a finalidade audiovisual, onde, na etapa de pré-produção do vídeo, foram fotografadas várias locações[9] na cidade visando à realização desta obra.

A casa foi aproveitada para compor os ambientes de interiores da narrativa, que foram as primeiras cenas a serem gravadas, por uma preferência da fotógrafa do vídeo na opção de começar o processo trabalhando com a luz controlada em ambientes internos. Esse processo de gravação das cenas de interiores durou aproximadamente seis horas. No dia seguinte, foram gravadas todas as tomadas externas, devidamente realizadas com sucesso, entretanto o tempo que tivemos não foi suficiente para realizar mais variações de cada plano (como por exemplo, os planos detalhes[10]), pois estávamos trabalhando com luz natural, que ia caindo com o fim do dia. Fora essa pressa, e a dispersão de um dos membros da equipe (que foi parar em outro lugar que não a locação combinada), tudo correu como programado, inclusive nos permitindo esperar o anoitecer para fazer as tomadas noturnas externas ainda no parque, e retornar ao bosque para as noturnas. Deixamos para o último dia de gravação a cena mais difícil de ser realizada: o plano sequência inicial, que foi gravado às 05h20min da manhã, na praia de Atalaia, para garantir uma iluminação sutil e poética em termos fotográficos. O clima colocou a equipe em xeque, pois choveu praticamente a madrugada inteira, e ainda estava nublado quando saímos do ponto de encontro para a locação. Na cena, podemos ver o céu ainda nublado, o que nos dá ainda um tom “frio” na imagem.
 Foi utilizado para a produção deste vídeo um orçamento de exatos R$ 190,06.

MONTAGEM E FINALIZAÇÃO


O processo de edição e finalização foi totalmente elaborado na casa do autor deste trabalho, em um computador pessoal, utilizando o software Sony Vegas Video 9.0, possibilitando todos os recursos de edição necessários.

Todos os planos foram gravados sem cortes, com a performer vindo de encontro à câmera, e depois retornando até a marca limite de quadro, para que fosse aproveitado, na montagem, qualquer um dos trechos do plano para ser ajustado à narrativa conforme a escolha do diretor.

A escolha dos planos na montagem se deu, no primeiro segmento, de acordo com o roteiro, porém, na montagem do segundo segmento, as imagens foram escolhidas (para a justaposição) de certo modo, aleatoriamente (mas procurando dar a continuidade de dia e noite, que indicam a passagem do tempo na trama), tendo em vista sua combinação estética com a anterior, já que estamos trabalhando com blocos de tempo e espaço autônomos dentro da narrativa.

Duas cenas foram espelhadas na montagem, como solução encontrada para a narrativa. Um mesmo plano, foi utilizado duas vezes: uma com a performer caminhando em direção à câmera, outra espelhada com ela se afastando da mesma, para fazer sentido no jogo de eixos de câmera.[11]

O SOM EM PENÉLOPE, CAIS E ESPERA


Segundo Marcel Martin (1971, p.22), "o som é também um elemento decisivo da imagem pela dimensão que lhe acrescenta". Isso, do ponto de vista dos filme narrativos de linguagem clássica. Aqui nesta obra, não temos o som dos ambientes. O som ambiente é substituído por música, sendo elemento componente desta linguagem utilizada, tendo como referência os filmes do Kenneth Anger “Scorpio rising” e “Rabbits moon”, que utiliza músicas dos anos 50 e 60 em sua trilha sonora e “Eaux d´artifice”, com trilha sonora de Vivaldi; ou em “Nosferato no Brasil” de Ivan Cardoso, onde ele utiliza bossa nova e garota de ipanema para esteriotipar o Brasil, ou um ataque de uma vampira a um rapaz ao som de Jimmy Hendrix, coexistindo entre Rolling Stones e Roberto Carlos, a fim de colaborar com as imagens na construção fictícia da visita de Nosferato (uma versão tupiniquim do personagem de Murneau) à este país tropical. Assim como nesses filmes, em Penelope, cais e espera, não há nada além de uma sequência de músicas pré-determinadas pelo diretor do filme, que segue a uma sequência de imagens. Júlio Medaglia, maestro e compositor de trilhas de novelas nos anos 70, afirma que a música, quando escolhida para a função de sonora no audiovisual, deixa de ser música pura, passando a assumir função descritiva tornando-se veículo de informação, trabalhando em parceria com a imagem ou como elemento de contraponto da mesma, ou ainda ser utilizada como “elemento de informação da temperatura dramática do desenvolvimento da ação” fílmica, denotando ao espectador a situação psicológica da ação, direcionando-o para o objetivo da obra, concluindo ainda que “a música enquanto trilha sonora é uma arte conceitual” (Medaglia, 2003, pp 232-263).

A trilha sonora deste trabalho prático é composta por músicas contemporâneas do grupo inglês Pink Floyd (os dois movimentos iniciais da peça Sysiphus, composição do tecladista Richard Wright), e a peça orquestral “Dead city radio: audiodrome” do compositor Fausto Romitelli (1963-2004), que foram escolhidas tanto pela sua carga dramática, quanto pela oscilação entre tensão e relaxamento encontrada nas duas obras: a primeira obra que abre o vídeo é uma anunciação do tema exposto pelo compositor (assim como a primeira imagem do vídeo anuncia o clima deste). Em seguida o desenvolvimento desse tema vai do piano melodioso a clusters[12] graves, à medida que as imagens vão noticiando os estados de tensão à ‘fuga’, como se a agonia da personagem não coubesse mais dentro daquela casa; a peça musical contemporânea (2003) Dead city radio. Audiodrome de Fausto Romitelli, trabalha o tempo inteiro com a tensão em ‘explosões’ da orquestra e com os graves dos metais e da guitarra elétrica em crescendo, em ciclos que tem como contraponto os agudos da percussão, flautas e violinos. A essência orgânica da música de Romitelli, seus timbres e sua forma oscilante e cíclica, dá ao vídeo a tensão necessária na caminhada da personagem, do início ao final do segundo segmento.

Por fim, os créditos finais são apresentados ao som de John Lennon com a canção Woman is the nigger of the world, onde o compositor expõe um ponto de vista sobre a condição da mulher, aqui, representa uma observação sobre o tema do vídeo, também sugerindo uma reflexão (em forma de objeto artístico) sobre essa condição feminina desde a Grécia antiga aos dias de hoje, acrescentando à obra, o caráter da arte pós-moderna de observar o outro (multiculturalismo e feminismo), segundo Heartney (2002), concluindo o vídeo.
A ausência de texto falado e/ou escrito no vídeo contribui para a compreensão universal da obra unicamente pela linguagem do cinema.



[1] Sempre que referido P.A. leia-se Progressão Aritmética
[2] Recurso de edição pelo qual podemos tornar mais lento os movimentos registrados pela câmera. Algumas câmeras de vídeo profissionais possuem este recurso que pode ser aplicado no momento da captura da imagem, entretanto, neste caso o efeito de “câmera lenta” foi aplicado durante a edição.
[3] Palestra realizada em Aracaju, 2008.
[4] Irreversible, Gaspar Noé, 2002, França.
[5] Planos longos que acompanham uma ação, formando uma sequência inteira sem cortes
[6] Câmera utilizada para a filmagem da obra.
[7] Efeito de escurecimento da imagem até o preto total.
[8] Do francês observador
[9] Locais que servem de cenários naturais para a gravação das cenas.
[10] Enquadramento semelhante ao close, que serve para dar ênfase a detalhes menores do plano anterior.
[11] Regra clássica de posicionamento de câmera que forma um eixo imaginário de 180 graus, dando ao espectador a noção de espaço.
[12] Técnica de música moderna que consiste em blocos de notas tocados de uma só vez.






terça-feira, 3 de dezembro de 2013

EXTREME FLICKERING EXPERIENCE


Vídeo, Cor / PB, 1 min.

O corpo é o receptor de toda obra de arte. Para esta função depende dos órgãos dos sentidos que integram o complexo, interagindo com o espaço exterior. Nas artes plásticas, o olho é o intermediador entre a obra e o cérebro que irá decodificar a informação artística aplicada na obra. No cinema, as informações visuais combinadas às auditivas se complementam concretizando a obra.
Extreme Flickering Experience é um estudo prático da estruturação das mínimas unidades de imagem em movimento e as possíveis formas de combinação de imagens alheatórias (ou variações de uma mesma imagem em cores diferentes) além de uma posterior observação ótica dos seus resultados. Neste caso, estou trabalhando com vídeo digital em sistema NTSC que utiliza como padrão 29 frames por segundo. A proposta do vídeo é exatamente de observar as reações físicas advindas do excesso de informação visual e auditiva que levam ao extremo a capacidade de percepção humana. O título em inglês pode ser entendido em português como "experiência piscante extrema". A trilha sonora é a musica Test Patern #0010 do compositor japonês Ryoji Ikeda que trabalha o ruído branco como objeto sonoro das suas composições (o ruído branco é uma combinação simultânea de todas as frequências sonoras).
O cinema, ainda em seu período experimental chegou a definir um padrão de 24 quadros por segundo, baseados na persistência da retina humana, chegando à conclusão que as imagens projetadas com velocidade acima de 16 quadros por segundo são interpretadas pela retina como imagens sem interrupção. Entretanto, neste trabalho temos a velocidade das imagens alternando entre negativo e positivo, somada à combinação de cores (cor primária e sua complementar utilizadas consecutivamente) piscando em uma média de 20 a 29 imagens diferentes por segundo, que associadas à trilha sonora em stereo, atuando informações sonoras diferentes em ambos os canais, acabam por gerar o chamado ritmo taquicoscópico subliminar, segundo o Dr. em ciência da comunicação Flávio Calazans, conforme seu artigo "midiologia subliminar: propaganda subliminar multimídia - o estado da técnica ao raiar do ano 2000".
Este trabalho tem como base obras do cinema estrutural, vertente do cinema de vanguarda que Adams Sitney, criador desta nomenclatura, definiu como um cinema baseado na estrutura de sua forma onde qualquer conteúdo é mínimo, sendo esta forma simplificada e predeterminada. Sitney aponta ainda quatro características das quais duas delas aparecem neste trabalho: a câmera fixa e o efeito de flickagem, embora esses pressupostos sejam amplamente discutíveis entre os teóricos.
            Como obras de referência deste trabalho, temos o filme Arnulf Rainer do cineasta austríaco Peter Kubelka, (composto de fotogramas pretos e brancos e ruído branco e silêncio em alternância), e mais quatro obras do pintor e cineasta americano Paul Sharits que valoriza a diferença entre os fotogramas resultando no impacto desta diferença sobre a retina durante a projeção.
            Realizando esta pesquisa, pude notar ao montar e assistir ao vídeo Extreme Flickering Experience, depois de definir previamente sua estrutura, que qualquer variação na ordem estrutural das partes que compõem o todo é extremamente crucial para o modo como o olho humano (e consequentemente o cérebro) irá codificar essa informação, por menor que seja esta partícula de informação visual. Também pude notar como o efeito flickering e a combinação de cores pode nos causar, em longos períodos de exposição, além de cansaço visual uma sensação física de mal estar, comprovando assim a relações entre o objeto artístico e corpo, e como percebemos o invisível através dele.

Referência Bibliográfica:

ADRIANO, Carlos. Um guia para as vanguardas cinematográficas. Encontrado em http://pphp.uol.com.br/tropico/html/textos/1611,1.shl acessado em 04 de agosto de 2009.
ARNHEIM, Rudolf. Arte e Percepção Visual: uma psicologia da visão criadora, São Paulo: Pioneira, 2002.
CALAZANS, Flávio. Midiologia subliminar: propaganda subliminar multimídia:
o estado da técnica ao raiar do ano 2000,  http://www.eca.usp.br/alaic/Congreso1999/13gt/Flavio%20Calazans.rtf acessado em 04 de agosto de 2009.
GIDAL, Peter. Structural Film Anthology, London: British Film Institute, 1976. 

 

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Trilha Sonora do documentário Na Estrada do Tempo

DISPONÍVEL PARA DOWNLOAD

Trilha sonora do documentário com TRÊS músicas INÉDITAS, mais uma versão inédita e inusitada de "Banquete dos Gafanhotos" (para os aficionados em videogame), além de uma desencavada do clássico "Fungos" do EP "Plastic Rock Explosion". 


domingo, 10 de novembro de 2013

Dream Sequence Experiment Serie

Dream Sequence Experiment Serie (47min, 2007-13, Cor, som, 16:9 / 4:3)



O média metragem 'dream sequence experiment serie' é um experimento videográfico elaborado a partir de vários curtas-metragem e colagens de imagens gravadas pelo autor por sete anos, incluindo sobras de seus próprios filmes, assim como cenas não utilizadas, apropriação de imagens televisivas e trechos de filmes, numa viagem audiovisual apresentada de forma artística perpassando o documental e chegando à sinestesia.

Abaixo, alguns excertos desta obra:





sábado, 9 de novembro de 2013

Psicodelia do rock’n roll da cidade na tela do Museu da Gente Sergipana

Com uma linguagem de home-video, que transita entre documentário e vídeo musical, o média-metragem Na Estrada do Tempo traz para as grandes telas o convívio da banda sergipana Plástico Lunar, no palco e fora dele. A produção de 56 minutos, dirigida e roteirizada por Alessandro Santana, estreia no circuito de exibição independente nesta terça-feira (12), em sessão a ser realizada no Museu da Gente Sergipana, às 18h30.

Foram mais de três anos de captação de imagens, que resultaram em um arquivo com aproximadamente oito horas de material bruto, em alta definição. Para a realização do filme, o videomaker acompanhou os bastidores de turnês do grupo de rock psicodélico pelo eixo sul-sudeste e também o início do processo de gravação do segundo álbum, assim como o retorno a Aracaju, cidade natal da banda.

O acervo mantido por Santana foi o pontapé inicial para a concretização da produção. “Daí, surgiu à ideia de complementar, editar e fazer este documentário, que registra, de uma forma um tanto íntima, o convívio da banda, com uma linguagem de home vídeo, assim como os vídeos de turnê de bandas de rock dos anos 90, que, geralmente, eram filmados por membros da banda, roadies ou amigos próximos”, explica o diretor.

A sessão de lançamento será aberta pelo média-metragem Na Estrada do Tempo, seguido do curta-metragem "Vestígios da década passada", de 11 minutos, que integra os extras do DVD fazendo um apanhado do material captado em equipamento analógico, registrado entre 2005 e 2008.

Sobre a banda – Criada em meados do ano 2000, a Plástico Lunar flerta com a música negra norte-americana e com a prog-psicodelia brasileira, trabalhando com criatividade o bom e velho rock´n roll. Atualmente formada por Daniel Torres, Plástico Jr, Leo Airplane e Marcos Odara, o conjunto musical se caracteriza pela forte identidade autoral e por uma essência criativa, comprovada em sua discografia, que conta com participações em coletâneas, dois EP´s independentes, um single e um CD lançado pelo selo paulista Baratos Afins.

Sobre o diretor – Nascido em Aracaju, é especialista em Artes Visuais. No ano de 2000, começa a produzir na área de audiovisual fazendo câmera no curta metragem "a paquera". Em 2007, começa a atuar como diretor, produzindo o vídeo "Desconforto ... ou qualquer título que lhe caia melhor"; em 2009, em parceria com Bruno Monteiro e Mauro Luciano, realiza o curta metragem de ficção “A eterna maldição do Cacique Serigy”. Sua produção entre 2008 e 2013 contabiliza mais de 20 vídeos de curta e média duração (alguns inéditos até hoje) além de videoclipes para bandas como Karne Krua, e a brasiliense Satanique Samba Trio.
 
Serviço:
Lançamento DVD Na Estrada do Tempo, de Alessandro Santana
Horário: 12/11. Terça-feira, às 18h30.
Local: Museu da Gente Sergipana | Av. Ivo do Prado, 398 – Centro
Classificação indicativa: livre.
Entrada franca.






Algumas cenas do vídeo:








 






 











sexta-feira, 1 de novembro de 2013

PLÁSTICO LUNAR - NA ESTRADA DO TEMPO - DVD

TRAILER:


O DVD tem como material principal o documentário Na estrada do tempo, um vídeo que acompanha três anos da banda em momentos gravados entre 2011 e 2013, suas tocadas no eixo sul-sudeste e o retorno à sua cidade natal, Aracaju, assim como o início do processo de gravação do seu segundo álbum, apresentado num formato que se posiciona entre o documentário e o vídeo musical, em 56 minutos de duração. Os extras contemplam os videoclipes dirigidos por Alessandro Santana, assim como o documentário de curta metragem "Vestígios da década passada" (11 min.), que faz um apanhado do material gravado em equipamento analógico captado entre 2005 e 2008, a exemplo da 'Plastic Rock Explosion Tour', no eixo Rio-São Paulo (2005).

Inicialmente, existia um material que estava guardado, registros em vídeo de acervo da banda em cerca de 8 horas de material gravados em HD – alta definição – ao longo de três anos.  Daí surgiu à ideia de complementar, editar e fazer este documentário, que registra de uma forma um tanto íntima o convívio da banda no palco e fora dele, com uma linguagem de home vídeo, assim como os vídeos de tournê de bandas de rock dos anos 90, que geralmente eram filmados por membros da banda, roadies ou amigos próximos. Aproveitando este material para compor ambos os documentários, que, após a concepção inicial do projeto, continuou-se à acompanhara banda com a câmera a fim de concluir o projeto com algumas imagens da gravação do segundo álbum.